Indústria espera volta do Reintegra como estímulo ao aumento das vendas.

21/08/2019 | Valor Econômico

Por Gleise de Castro, para o Valor, de São Paulo

A indústria brasileira de aço enfrenta um cenário duplamente adverso, com impactos da estagnação econômica interna e de uma conjuntura internacional desfavorável. A retomada econômica esperada para o primeiro semestre não veio, levando a uma queda de 4,3% na produção, de janeiro a julho, em relação a mesmo período de 2018, para 19,7 milhões de toneladas, de acordo com o Instituto Aço Brasil. As vendas internas caíram 0,5%, atingindo 10,7 milhões de toneladas, e o consumo aparente nacional ficou em 12,1 milhões de toneladas, 1,5% abaixo do registrado nos primeiros sete meses de 2018. Já as exportações recuaram 1,8%, somando 7,7 milhões de toneladas, e as importações diminuíram 1,6%, para 1,5 milhão de toneladas.

No mercado externo, a maior pressão vem do excesso de capacidade de produção, um total de 395 milhões de toneladas, a maior parte concentrada na China, levando a uma escalada protecionista. O cenário internacional é agravado ainda pela guerra comercial entre EUA e China, recrudescimento da crise na Argentina e pelos recentes sinais de uma possível recessão econômica global. Essas questões estão entre os temas debatidos durante o 30º Congresso Aço Brasil, que termina hoje, em Brasília.

As expectativas são de que haja reação moderada no mercado interno no segundo semestre e de que o setor encerre o ano com números melhores. Conforme projeções do Aço Brasil, o consumo aparente deve aumentar 2,1% no ano, atingindo 21,6 milhões de toneladas. A produção deve ficar estável, com alta de 0,4%, para 35,6 milhões de toneladas. As exportações devem cair 7,3%, em função das dificuldades externas e da perda de competitividade das empresas, decorrente principalmente, segundo o Aço Brasil, da cumulatividade dos impostos nas vendas externas.

As perspectivas do setor apontam uma reativação mais consistente, a ser sentida a partir de 2020, à medida que a aprovação das reformas da Previdência e tributária, em conjunto com medidas como privatizações e concessões, resultem em um ambiente mais favorável à retomada econômica. “Há um conjunto de coisas acontecendo, como as reformas, o Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) e o novo mercado de gás, criando os alicerces para uma retomada mais vigorosa da economia a partir de 2020”, diz Marco Polo de Mello Lopes, presidente executivo do Aço Brasil.

Esses resultados, porém, devem ocorrer a médio e longo prazos. Trabalhando com 67% da capacidade instalada, a siderurgia considera também necessários estímulos de curto prazo para ativar a exportação. O principal mecanismo pleiteado é a recuperação do Reintegra, programa que prevê a devolução de resíduo tributário existente na cadeia de produtos exportados, de até 3% da receita de exportação, que hoje está em 0,1%. O objetivo é tornar as exportações mais competitivas, minorando o impacto do custo Brasil, em que entram fatores como excesso de impostos, juros altos e infraestrutura deficiente. “A volta do Reintegra é vital para compensar em parte a cumulatividade de impostos na exportação, tanto para o aço como para os demais setores industriais”, diz Lopes.

Para José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), o Reintegra tem impacto rápido e gera emprego, não só na aciaria, mas em toda a cadeia. Para cada R$ 1 bilhão exportados em manufaturados, segundo ele, são gerados 50 mil empregos diretos e indiretos. “O interesse da indústria hoje é exportar o máximo que puder, pois não temos como recorrer ao mercado interno”, afirma.

O mecanismo está entre os temas tratados pela Coalizão Indústria, reunião de representantes de 11 setores industriais, com o ministro da Economia, Paulo Guedes, para reativação da indústria brasileira. José Velloso, presidente executivo da Abimaq e representante da Coalizão, cita também a necessidade de financiamento à exportação e seguro de crédito, para estimular as vendas externas das indústrias como um todo. Outra proposta, com efeito de médio a longo prazo, é a retomada de milhares de obras públicas paradas no país. “Com isso, se poderiam destravar outros setores, porque além de demandar bastante mão de obra, a construção civil demanda bastante insumos, como aço, cimento, máquinas e equipamentos.”

Elaborada pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), a proposta aponta 4.738 obras paralisadas no Brasil, por motivos que vão da falta de pagamento à má qualidade do projeto. Grande parte são obras de menor porte, como creches e unidades básicas de saúde. A ideia é retomá-las rapidamente com soluções como a utilização de recursos do FGTS. “Propomos uma série de medidas sem ônus algum para o Tesouro, que podem reativar a economia e gerar 500 mil empregos diretos”, diz José Carlos Martins, presidente da CBIC.

Sergio Leite, presidente da Usiminas, destaca a retomada do crescimento econômico como principal ponto da agenda levada ao governo pela indústria, com foco em três aspectos: recuperação do investimento em infraestrutura e na construção civil e apoio à exportação, além de apoio às reformas.

“O Brasil está pronto para decolar dentro dos próximos 12 meses, ao ritmo de 2,5% anuais de crescimento.” “O Brasil está em uma situação macroeconômica relativamente estável, com inflação e juros baixos, favorável a uma boa partida”, diz Claudio Bastos, presidente da Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP). A questão, afirma, é como disparar esse crescimento. “O que falta é confiança de que a agenda do governo vai ser realmente implementada, para os empresários voltarem a investir.”

Por não fabricar produto acabado e sim placas de aço, destinadas à própria indústria siderúrgica, a CSP está conseguindo operar com capacidade total. Instalada na Zona de Processamento de Exportação do Ceará (ZPE-CE), a CSP obtém 80% da receita com vendas externas e está tendo dificuldades com as cotas impostas pelos EUA. A saída tem sido entrar indiretamente no mercado americano, vendendo a preços mais baixos para siderúrgicas mexicanas ou canadenses, que não estão sujeitas às cotas e vendem, depois, o produto acabado aos EUA.

“Temos de negociar com os Estados Unidos, até porque temos uma grande complementaridade com a indústria americana”, afirma Bastos.

Já a Gerdau tem aproveitado o cenário de estagnação da economia para se preparar para um novo ciclo de crescimento. “A agenda de reformas e medidas de estímulo à economia deve criar um cenário favorável à recuperação dos mercados de construção civil e indústria”, prevê Gustavo Werneck, CEO da empresa.
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